PETRÓLEO: produção angolana em alerta pois 2020 poderá ser ano de ciclo decrescente.

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Depois de meia década de queda dos investimentos em novos projetos, o crescimento da produção de petróleo deveria diminuir de forma acentuada, num contexto de procura sob pressão diante de uma grande transformação no mercado de combustíveis para o transporte marítimo. Muitos especialistas previam que se a cotação voltasse a atingir os 100 dólares por barril seria em 2020.

O otimismo está a desvanecer-se rapidamente. A primeira análise oficial para 2020 veio da Agência Internacional de Energia a 7 de junho, mas uma primeira análise das previsões de consultores e traders para os saldos de oferta e procura mostra excedentes persistentes, e não o défice que deveria sustentar os preços.

Os culpados: o aumento da produção de petróleo de xisto, a desaceleração da economia global e a perspetiva de uma escalada da guerra comercial.

“Os saldos para 2020 já eram preocupantes, mas a revisão em baixa das estimativas para a procura a que estamos a assistir coloca potencialmente esses saldos na categoria ‘feia’”, afirma Roger Diwan, consultor da IHS Markit que monitoriza os dados da OPEP.

Consultores e traders já fizeram as primeiras projeções, e os resultados para a oferta e para a procura apontam, na melhor das hipóteses, para um mercado equilibrado. Mas muitos preveem que a oferta vai exceder o consumo, e possivelmente por uma larga margem.

O mercado de petróleo, mostrando características típicas das ações, já começa a refletir um potencial excedente em 2020. Apesar da crise desencadeada pela contaminação do gasoduto da Rússia e das sanções dos Estados Unidos contra o Irão e a Venezuela, as cotações do petróleo caíram para menos de 60 dólares na semana passada, uma descida de mais de 20% em relação aos 75 dólares do final de abril.

A perspetiva pessimista para o próximo ano é um problema para a aliança OPEP+, liderada pela Arábia Saudita e pela Rússia. Se as previsões para 2020 estiverem corretas, o grupo pode ser forçado a manter os cortes na produção por mais tempo do que o previsto inicialmente com o objetivo de evitar um aumento dos stocks globais de petróleo.

A aliança OPEP+ deverá reunir-se nas próximas semanas em Viena para discutir a política de produção para o segundo semestre de 2019.

Os investidores que apostavam na valorização do petróleo não estavam completamente errados na análise para o ano que vem: as mudanças nos combustíveis para o transporte marítimo, que deverão reduzir o teor de enxofre, conhecidas como IMO 2020, vão certamente impulsionar a procura por diesel, empurrando aquele segmento específico do mercado de petróleo para um défice. No entanto, o crescimento da oferta, alimentado pelo resiliente setor do petróleo de xisto dos EUA, continua a surpreender.

Dinâmica do mercado

“A dinâmica do mercado mudou devido ao xisto”, explicou Ben van Beurden, diretor da Royal Dutch Shell Plc, num painel no Fórum Económico Internacional de São Petersburgo, na semana passada.

O que nem os touros nem os ursos poderiam antecipar prende-se com o presidente dos EUA, Donald Trump, e as suas políticas erráticas, que travaram as engrenagens da economia global. No início deste mês, o Fundo Monetário Internacional cortou a sua previsão de crescimento económico para a China – o motor da procura por commodities – para 6% no próximo ano, a taxa mais baixa desde 1990 e menos de metade do pico de 14,2% em 2007.

“Há evidências crescentes de uma desaceleração mais acentuada do que o esperado na procura”, disse Martijn Rats, analista de petróleo do Morgan Stanley em Londres. Entre os principais consumidores de petróleo do mundo, o crescimento homólogo do consumo chegou ao fim em março. Os números da procura de abril, ainda que preliminares, também mostram pouco aumento.

Os primeiros olhares hesitantes para 2020, feitos por consultores de petróleo, são quase unânimes quanto à possibilidade de um excesso de oferta – uma visão partilhada em particular por grandes unidades de investimento em commodities. Os excedentes são ainda mais impressionantes pelo facto de ninguém prever uma recuperação da produção iraniana e venezuelana. No ano passado, a produção combinada destes dois produtores da OPEP caiu em cerca de 2,2 milhões de barris por dia – um valor equivalente ao consumo da Alemanha.

Sonangol, produção angolana e receitas do Estado podem estar em perigo.

A Sonangol, cuja agenda passa pela transformação numa verdadeira empresa petrolífera e a produção nacional do país africano, mediante elevada instabilidade do preço da matéria prima e decréscimo na capacidade interna, continuarão a representar soluções frágeis no quesito de obtenção de receita, serviço da dívida, robustez nas Reservas Internacionais Líquidas e execução do Orçamento Geral do Estado (OGE).

Fonte: Jornal de Negócios
(Texto original: Bulls Beware: The 2020 Oil Market Is Quickly Turning Ugly)

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