MULHER AFRICANA: “Criar emprego e oportunidades para as mulheres significa apostar no progresso das próprias comunidades.”

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Isabel dos Santos, de 45 anos, é empresária de sucesso e criadora de milhares de empregos. Os seus investimentos somados ao cargo que ocupou como Presidente do Conselho de Administração da Sonangol, a maior companhia petrolífera de Angola, fazem dela uma das mulheres mais bem sucedidas de África. Actualmente tem participado activamente no trabalho filantrópico relacionado ao empoderamento económico das mulheres e tem também incentivado os empresários africanos a investirem nos seus países de origem de modo que seja possível aumentar o seu impacto na economia mundial.

A empresária tornou-se uma figura incontornável na luta pelos direitos das mulheres, e o seu sucesso no mundo dos negócios fez dela uma das pessoas mais respeitadas, tanto em África como no resto do mundo.

“Criar emprego e oportunidades para as mulheres significa apostar no progresso das próprias comunidades. Quando prosperam, as mulheres investem a sua renda na família, na saúde e na educação. Eu valorizo isso como um senso de dever, compromisso e dedicação. O impacto que as mulheres criam ao seu redor é poderoso e transformador ”.

Isabel dos Santos deixa claro que tem sido difícil ser bem sucedida em África por tratar-se de um continente cuja economia é dominada por homens. Cada um de seus sucessos foi prejudicado pelo preconceito, porém tais dificuldades encorajaram-na a investir em atividades filantrópicas que pavimentam o caminho para as próximas gerações de empresárias africanas.

Na entrevista, dos Santos fala sobre o seu percurso, e dos desafios que enfrentou em África – um continente significativamente dominado por homens.

Que desafios enfrentou numa sociedade Africana predominantemente masculina?

As mulheres do mundo empresarial de África sabem bem que a discriminação e o sexismo são preocupações reais. Durante o auge da minha carreira, as minhas opiniões sempre foram postas em causa, como se o facto de ser mulher me tornasse incapaz de negociar acordos por conta própria. Em todas as decisões que tomei ou nas ideias que sugeri, fui sempre questionada, e isso forçou-me a ser cada vez mais criativa e eficaz na maneira como afirmo o meu valor, a minha experiência e as minhas habilidades. Este é um problema que muitas mulheres enfrentam regularmente em todo o mundo.

O grande desafio está em encontrar formas de mudar a cultura a um nível global e em simultâneo, fazer esforços individuais que contribuam para que tal mudança aconteça. Isso é bastante inquietante, porque, embora muitas mulheres sintam necessidade de falar sobre esse tipo de tratamento, elas também têm noção de que isso pode levá-las a serem marginalizadas ou até mesmo a perderem os seus cargos. Desafiar a ordem estabelecida não é certamente a maneira mais rápida de fazer amigos e parceiros comerciais, mas esse é um dilema que a maioria das mulheres enfrentam no seu ambiente de trabalho. O problema é particularmente acentuado em África e noutras nações ao redor do mundo.

Em festas ou em público, as pessoas muitas vezes assumem que sou uma mãe que fica em casa e que deve ser casada com um homem de sucesso. Muitas vezes perguntam-me: “O que o seu marido faz?” E nunca “Em que área você trabalha?” Infelizmente é algo bastante comum. Apesar de decepcionante, não é tão limitador quanto o prejuízo que as empresárias têm de suportar ao tentar angariar capital para os seus negócios. Os investidores têm muito mais confiança nos projetos supervisionados pelos homens.

Isso significa que as proprietárias de empresas devem ir ainda mais longe para provar a sua eficiência. Elas recebem menos financiamento na fase inicial, por isso têm de gastar mais tempo na organização dos seus negócios até que tenham números tão impressionantes que sejam inegáveis. Com a maior parte dos homens acontece o oposto, visto que conseguem garantir financiamento pura e simplesmente pela confiança que as suas ideias transmitem ou por serem bem relacionados. E quanto menos apoio se dá às empresas dirigidas por mulheres, menos mulheres existirão em posições de sucesso, onde possam atrair outras mulheres competentes que estejam apenas a fazer o seu percurso normal em determinada indústria.

Tudo isso contribui para um ambiente que desincentiva metade da população a atingir o nível de sucesso que, de outra forma, poderia obter. Costumo compará-lo a uma corrida em que ambos os participantes têm de percorrer a mesma distância até a linha de chegada, mas enquanto um corre à vontade, o outro percorre um caminho alagado no qual a água chega-lhe até a cintura. O destino é o mesmo, mas os obstáculos que devem ser superados não.

Que oportunidades existem para que as mulheres se tornem empresárias de sucesso nos países africanos?

Apesar do preconceito no mundo empresarial africano, é possível que as mulheres se tornem bem sucedidas. Com resiliência, talento e coragem, isso pode acontecer. Aconselho as mulheres jovens a seguirem nas suas habilidades e paixões. Este é o melhor ponto de partida.

As mulheres jovens são constantemente privadas do direito à educação de qualidade, impedidas de ter oportunidades de trabalho específicas simplesmente por causa do seu género sexual e por almejarem concretizar feitos “destinados aos homens”. Isso é realmente uma tragédia! Há tanto potencial em África em termos de talento bruto e oportunidades económicas que abundam o continente.

A agricultura é um setor particularmente promissor em África. Operações de escala média com foco na produção de produtos, criação de animais e manufatura estão-se a tornar mais lucrativas. A crescente classe média em alguns países africanos também abriu oportunidades ao turismo interno. Isso dá às pequenas empresas uma oportunidade de atenderem a um mercado em claro crescimento.

Esta tem sido uma tendência bastante encorajadora, pois mostra que cada vez mais pessoas africanas de renda média e alta estão dispostas a gastar o seu dinheiro dentro do continente. Quanto mais África se puder estabelecer como um lugar rico em maravilhas, não só para turistas do exterior, mas também de pessoas  que venham de dentro das nossas fronteiras, e que talvez nunca tenham explorado na sua plenitude a riqueza e diversidade do continente, as oportunidades económicas continuarão a crescer e a melhorar.

Mas, mais uma vez, há passos importantes que teremos de dar primeiro. Eu sempre digo: “primeiro a semente, depois o futuro”. Primeiro, devemos abordar os principais problemas de hoje, tais como a desigualdade de género e as questões de justiça social relacionadas a ela. O nosso crescimento deve ser constante e consistente, se quisermos progredir. Esse compromisso exige energia e nem sempre é o caminho mais empolgante. Mas é o necessário para que melhoremos nos próximos 50 anos. Temos de criar novos empregos, fornecer treinamento para mulheres e pessoas marginalizadas e quebrar estereótipos que retenham não apenas as mulheres, mas o nosso continente como um todo.

Que homens apoiaram-na na carreira empresarial? Você tem algum conselho para os pais sobre como criar mulheres fortes em África?

O meu pai sempre apoiou-me. Olhando para trás, ele tratou-me como tratou aos meus irmãos. Nunca me disseram para agir ou falar de determinada maneira, nem fui instruída a seguir uma carreira tradicionalmente feminina. Ele apoiou-me em todas as decisões e até encorajou-me a estudar ciência da computação ou a tornar-me uma astronauta. A sua motivação fez com que me sentisse suficientemente forte e competente para matricular-me num programa de engenharia e completar a minha formação numa universidade.

É aí que grande parte da responsabilidade recai sobre os homens. Porque até que as mulheres realmente recebam oportunidades iguais e direitos, continuaremos em posições nas quais os nossos mentores e líderes serão mais frequentemente homens. Isso significa que os homens nessas posições têm o dever, de serem solidários de qualquer maneira possível e fornecer as ferramentas necessárias para que as mulheres progridam. Os homens não podem ter medo ou hesitar em levantar a mulher por medo de perderem as suas posições de poder. Eles devem reconhecer que quando uma de nós atinge novas voos, todos nós o fazemos. Afinal, uma maré alta levanta todos os navios.

Não fui criada numa casa em que me dissessem para esperar até que encontrasse um homem para me casar e sustentar. Fui criada para entender que o trabalho duro e a perseverança através da adversidade é que nos levam a fazer um nome por mérito próprio. Ter esse tipo de educação deu-me uma independência e ambição que poucas mulheres africanas percebem ter. Eu aconselho todos os pais a fazerem um esforço para criarem as suas filhas dessa forma – incutindo-lhes confiança e ambição, estarão a dar a elas o apoio de que necessitam para se tornarem mulheres de sucesso.

Muitos pais em África e no mundo têm medo de ensinar aos filhos, coragem e independência. Eles preocupam-se que, caso encorajem os seus filhos, particularmente as mulheres, a irem em direção aos seus sonhos, estarão abrir um caminho para o fracasso. Contudo é necessário que as mulheres sejam encorajadas a buscar metas ambiciosas, caso contrário, nunca se sentirão capacitadas para fazer algo grandioso em suas vidas. Também é importante porque demonstra que elas têm o direito de realizar os seus sonhos e não precisam de depender de um homem para que isso aconteça. Quanto mais pudermos encorajar esse tipo de pensamento e esse modelo comportamental, melhor será para todos nós.

O meu marido também apoiou profundamente a minha carreira. Sempre incentivou-me, e quando preciso trabalhar longas horas ou fazer viagens de negócios, sempre posso contar com ele para ficar com os nossos filhos. Sempre fui grata pelo seu apoio e vontade de ocupar um outro papel, que não o da estereotipada suposição de que o pai deve ser o principal provedor e a mãe deve ficar sempre em casa com as crianças.

Que conselho prático tem para as pessoas que querem começar?

Aproveite os seus talentos e conhecimentos pré-existentes. Se for para uma área que conhece ou tem experiência anterior, então você terá uma vantagem competitiva. Acredito que as metas são alcançadas quando a ambição é combinada com a habilidade e a determinação. Esteja disposto/a a auto-avaliar-se e a determinar exatamente o que você é capaz de fazer melhor. Se você tem pontos fracos em certas áreas, transforme-os em pontos fortes. Esse processo pode ser desconfortável às vezes, mas é vital para quem quiser ter uma carreira de sucesso.

Junte esse compromisso com paixão e ambição e você estará pronto/a para começar a corrida. Isso ajudará a criar um plano de cinco anos e a tentar encontrar maneiras de angariar fundos para começar. Seja o mais detalhado possível e tente antecipar o máximo de problemas que puder. Resolvê-los antecipadamente pode evitar que você tome decisões erradas com conseqüências duradouras. Olhe sempre para o futuro e nunca estabeleça limites para você mesmo. Acredite que é capaz de realizar os seus sonhos mais ambiciosos e, em seguida, encontre maneiras de os concretizar.

Tenha em mente que isso levará muito tempo. O tempo é um investimento e focar em uma coisa significa que você não se pode concentrar noutra. Tente não deixar que suas aspirações no mundo dos negócios atrapalhem a sua família. É inevitável que você tenha que fazer alguns sacrifícios, mas tente ao máximo equilibrar a sua atenção entre as coisas e as pessoas que importam.

Lembre-se de que não existe um caminho “certo”. O que funcionou para outra pessoa pode não ser o certo para si. A suas prioridades são só suas, assim como as suas ambições e habilidades. Só porque você vê outras pessoas começarem famílias, ou não começarem famílias, começarem negócios ou se erguerem por meio de empresas existentes, não significa que essa seja a jornada indicada para si. Acredite no seu caminho e não terá como errar.

Como escolhe que causas apoiar?

Concentro o meu apoio no tipo de filantropia que, de alguma forma, beneficie a sociedade. Isso é tão importante para mim que estabeleci em todas as minhas empresas, divisões encarregadas de patrocinar instituições de caridade e programas que promovam a melhoria da sociedade. Criámos muitas iniciativas para melhorar a responsabilidade social, como apoiar um hospital pediátrico, financiar a luta contra a malária, levar água potável às comunidades carentes e sediar “dias de diversão” para crianças doentes e carenciadas.

Eu também acredito que os empresários são a chave para a prosperidade do continente africano. Estou profundamente empenhada em apoiar pequenas empresas com grandes sonhos, e aprecio as oportunidades que me foram concedidas para fazer discursos dirigidos a jovens mulheres em universidades e instituições do mundo inteiro. A educação, é uma das características mais importantes de uma sociedade. Assim como o meu pai ensinou-me a ser independente, forte e ambiciosa, devemos também estabelecer um sistema de educação que dê a todas as jovens de África a confiança de que precisam para terem sucesso.

Fonte: Q&A

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