Estas iniciativas acrescentaram valor ao sector agrícola de Malanje, maioritariamente “inundado” de culturas tradicionais, como tubérculos, hortícolas e cereais. A província aposta na melhoria da qualidade de vida da população, aumento de emprego e o fomento da agro-indústria local.

Actualmente, estão cultivados, na Fazenda Luck Man, comuna de Cambo Sunjinji, município de Cahombo, 520 hectares de fruteiras, entre bananeiras, laranjeiras, tangerineiras, goiabeiras e pitaya (fruta exótica originária da China).

Para além dos 520 hectares de fruteiras já plantados, outros 600 estão em preparação para a produção de citrinos. Já a Fazenda GEPEDRO, no município de Cangandala, está a produzir 52 hectares de maracujá roxo e amarelo.

De iniciativa privada, as duas fazendas foram criadas em 2017 e têm dado cartas neste segmento produtivo, bem como contribuem para a diversificação da economia local, afigurando-se, assim, em agentes empregadores em ascensão.

Relativamente à empregabilidade, já geraram 620 postos de trabalho (600 na Luck Man e 20 na GEPEDRO) para jovens dos municípios de Cahombo, Quela, Cunda-Dia-Base, Marimba, Kiwaba Nzoji e Cangandala.

Ambas dispõem de condições necessárias para liderar a revolução da produção frutífera na região e, quiçá, no país, a julgar também pelas extensões de terras disponíveis e pelos recursos hídricos em abundância na província.

Propriedade de um grupo empresarial chinês, a Lucky Man está implantada numa área de 10 mil hectares e conta com um investimento de 28 milhões de dólares norte-americanos.

Este projecto pretende ser referência em África, conforme ambicionam os proprietários, e contribuir para o aumento da cadeia alimentar do país, pelo que se perspectiva o alargamento da área de produção para até 100 mil hectares, onde serão cultivados, essencialmente, fruteiras, arroz e mandioca, esta última alimento tradicional de Malanje e base da agricultura familiar.

Para além de frutas, a Luck Man destaca-se na produção de mil e 500 hectares de mandioca (pronto a ser colhida e transformada), 800 hectares de arroz e cinco de feijão.

Este ano, a fazenda, com uma unidade fabril com capacidade para processar 10 toneladas de arroz/dia, já empacotou as primeiras quatro mil toneladas de arroz da primeira colheita do projecto, em sacos de 25 quilogramas, comercializada nas províncias de Malanje, Luanda, Lunda Norte e Lunda Sul, ao preço de quatro mil kwanzas/unidade.

A Luck Man dispõe, igualmente, de uma fábrica de transformação da mandioca em fuba de bombó, que se encontra, entretanto, paralisada por questões técnicas. A fuba antes produzida não possuía a qualidade desejada, devido a uma falha na máquina de descasque.

Associado à produção agro-industrial, foi já preparado um espaço de um hectare, onde estão a ser construídas pocilgas, para albergar 50 mil suínos, para a produção de carne, chouriço, entre outros derivados.

Os animais já foram adquiridos na África do Sul, e é expectável que, dentro de seis meses, a unidade de processamento entre em funcionamento.

Já a GEPEDRO, anexada ao Pólo Agro-Industrial de Capanda (PAC), situada no município de Cangandala, possui uma área total de três mil hectares, mas, por enquanto, apenas 52 estão cultivados com maracujá.

A meta é chegar, dentro de dois anos, aos 150 hectares, nos quais se projecta a colheita de cinco toneladas do produto, por hectare.

Cinquenta milhões de kwanzas é o valor já investido no projecto, iniciativa de um empresário angolano.

Nesta fazenda, as primeiras colheitas iniciaram-se em Março de 2018, com uma tonelada por semana. Actualmente, são colhidas, semanalmente, três toneladas de maracujá amarelo e roxo.

Escoamento

A produção de banana, laranja, tangerina, goiaba e pitaya, da Lucky Man, tem tido muita procura junto dos consumidores. Os produtos são escoados para os principais mercados das províncias de Malanje, Cuanza Norte, Luanda e Lunda Sul, com preços variáveis entre os 300 e 500 kwanzas, o quilograma de banana, pitaya e goiaba.

Enquanto isso, o maracujá produzido pela GEPEDRO tem sido fornecido aos pequenos empreendedores da cidade de Malanje e às superfícies comerciais das redes Kero e Candando, em Luanda, as quais têm comercializado o total da produção semanal (três mil toneladas) ao preço de 600 a 650 kwanzas o quilograma.

Infelizmente, nenhuma das grandes superfícies comerciais de Malanje aderiu ao maracujá produzido na GEPEDRO, sob alegação de o preço ser desvantajoso e reduzir a margem de lucro de quem precisa de revender.

De acordo com o responsável da GEPEDRO, Virgílio Chindemba, a fazenda preconiza praticar preços mais “competitivos”, assim que for aumentando a sua área de cultivo, que ainda está condicionada a factores de vária ordem.

Em contrapartida, as duas fazendas ainda são “assombradas” pela degradação das vias de acesso. Os troços são acidentados, grande parte delas ainda esburacada, o que constitui um empecilho ao escoamento rápido da produção, que, no período chuvoso, tem sido um “calcanhar de Aquiles”.

Aposta na transformação

A par da produção, a transformação das frutas em sumos é outro foco dos referidos projectos, que não olham a meios para dar respostas aos desafios que o Executivo angolano lançou ao sector empresarial nacional, para a necessidade de se fomentar a agro-indústria.

Na Lucky Man, por exemplo, estão a ser erguidas duas fábricas de sumo, cujos equipamentos, já adquiridos na China, chegam este ano a Angola. Cada unidade fabril prevê produzir 15 toneladas por dia, de acordo com o director agrícola da fazenda, Costa Caculo.

De igual modo, a GEPEDRO já adquiriu equipamentos para a montagem de uma fábrica de transformação de frutas em sumos, que entrará em funcionamento no final deste ano.

Difícil acesso ao crédito

Até ao momento, tudo quanto se fez nos dois projectos foi com fundos próprios, pelo que os empreendedores clamam por crédito, para ampliar as áreas de produção das fazendas, bem como acelerar o processo de industrialização.

Não obstante as mesmas terem já dado entrada dos documentos para beneficiar de crédito agrícola, a resposta tarda a chegar, o que provoca reflexos negativos no avanço de outras acções dos empreendimentos.

Em virtude disso, Virgílio Chindemba e Costa Caculo sugerem que se dê maior incentivo e se preste mais atenção a iniciativas privadas ligadas ao ramo agrícola, enquanto uma das bases de sustentabilidade e diversificação económica do país, para que projectos ambiciosos não “morram pelo caminho”.

“Para que a agricultura se transforme numa verdadeira base de sustentabilidade, é preciso que se invista mais no sector, que se faça mais trabalho de campo, caso contrário, não teremos grande evolução na agricultura”, reafirmam os responsáveis.

Dificuldades

Associado à degradação das vias de acesso e à demorada resposta da banca para a concessão de crédito, as fazendas estão ainda a braços com os avultados valores gastos na compra de combustível para os equipamentos, uma vez que o processo de subvenção de combustíveis para a agricultura aguarda pela concretização.

Caso a situação se mantenha, os custos de produção continuarão a ser elevados, o que acaba por afectar o preço do produto final. Paralelamente à subvenção dos combustíveis, os gestores pedem, também, a extensão da rede eléctrica nas respectivas fazendas, tendo em vista o processo de industrialização.

A título de exemplo, a Lucky Man consome, mensalmente, 40 mil litros de combustível, enquanto a GEPEDRO gasta cinco mil e 250 litros por mês, face ao nível de produção de cada uma.

A aquisição localmente de alguns insumos, como insecticidas, fungicidas, herbicidas, para tratamento fitossanitário e combate às pragas, constitui ainda preocupação das fazendas, pois a exiguidade de fornecedores destes produtos dá azo à especulação dos preços, pelo que solicitam a intervenção do Governo, para a resolução deste problema.

As fazendas já foram objecto de visita de delegações ministeriais da Agricultura, Indústria e Comércio.

O ministro do Comércio, Jofre Van-Dúnem, elogiou, durante a sua visita a estes empreendimentos, as iniciativas e realçou que só com o investimento privado e a sua integração na cadeia logística do programa de comércio rural será possível alavancar a economia nacional, tendo como base a diversificação da produção nacional.

Para o  ministro, são estas  iniciativas de que o país precisa  para dar maior fôlego à economia.

Por sua vez, o director provincial da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas, Carlos Chipóia, disse que a estratégia dos dois projectos em montar fábricas para a transformação representa um peso importante na balança económica local e alinha-se aos planos do Executivo tendentes à diversificação económica.

Responsabilidade social

No âmbito da responsabilidade social, a GEPEDRO atende, tecnicamente, a 189 camponeses das localidades circunvizinhas, através da disponibilização de tractores para a preparação das áreas de cultivo, bem como os instrui, metodologicamente, sobre as formas de se combaterem as pragas que assolam as culturas da mandioca, produto mais cultivado pela população do município de Cangandala.

A fazenda projecta, para este ano, a construção de uma escola do primeiro ciclo, onde vão estudar os petizes que vivem nas zonas próximas do projecto, muitos dos quais vão à lavra, mas estão fora do sistema de ensino.

Já a Lucky Man introduziu, no seu programa de responsabilidade social, o lançamento de um projecto-piloto às aldeias circunvizinhas, que visa a criação de lavras comunitárias, a formação profissional de jovens e a melhoria das vias de acesso.

Com uma população estimada em um milhão de habitantes, a província de Malanje é constituída pelos municípios de Cacuso, Cahombo, Calandula, Cambundi Catembo, Cangandala, Kiwaba Nzoji, Cunda-Dia-Base, Luquembo, Malanje, Marimba, Massango, Mucari, Quela e Quirima.

Com uma superfície territorial de 93.302 quilómetros quadrados, situa-se no Nordeste de Angola.

É essencialmente agrícola, destacando-se pela produção da mandioca, arroz, algodão, milho, batata-doce, ginguba, girassol, feijão, soja e hortícolas.

Conta, ainda, com recursos minerais, como diamante, calcário, urânio e fosfato, para além de recursos hídricos, visto que é banhada por muitos rios e riachos de caudal permanente, além de inúmeros lençóis de água profunda. Tem ainda muitos lagos e lagoas.

O clima de Malanje é tropical húmido-mesotérmico, tendo temperaturas médias anuais que rondam entre os 20 e os 25º C. O mês mais frio é o de Junho, com uma média anual de 21º, ao passo que, em Março e Abril, se regista o período mais quente, com cerca de 25º.

Ao longo do ano, ocorrem duas estações: a chuvosa, que abarca nove meses (de 15 de Agosto a 15 de Maio), e a de cacimbo, que vai de 15 de Maio a 15 de Agosto.

Fonte: Angop, por Aurélio Cua e Pedro Calombe