CARLOS LOPES: “94% dos africanos que vivem na Europa entraram legalmente.

Posted by

O académico guineense Carlos Lopes foi adjunto de Kofi Annan na ONU e é hoje professor na Nelson Mandela School of Public Governance, na Cidade do Cabo. Conversou com o DN em Lisboa, onde participou numa conferência sobre África organizada pelo IPDAL – Instituto para a Promoção da América Latina e Caraíbas.

O primeiro erro quando se fala de África é fazê-lo como se fosse toda igual – porque estamos a referir realidades muito diferentes. Já não falo só da tradicional divisão entre África do Norte, árabe, e África subsariana. Falo de um país como a África do Sul, que não é comparável com a Etiópia. Ou de um Moçambique, bem diferente de uma Nigéria. Portanto, é melhor falar de Áfricas?
Sim. Isso seria o mais correto, até porque, do ponto de vista do contexto histórico, há muitas diferenças. Mas, ao mesmo tempo, faz sentido falar de uma África para certas coisas. Por exemplo, o conjunto dos países africanos tem uma grande dependência das matérias-primas. Mesmo aqueles que não possuem uma grande riqueza de matérias-primas acabam por, por relações de vizinhança ou por dificuldades logísticas, depender um pouco dessa relação que África tem com as matérias-primas. Na classificação das Nações Unidas há 35 países na África que são altamente dependentes de exportação de matérias-primas. E essa definição comporta os países que têm pelo menos 80% das suas exportações.

Isso pode abranger desde um gigante petrolífero como a Nigéria, até um pequeno país…
Pode ser um pequeno país como a Guiné-Bissau que exporta castanha de Caju. Podem ser matérias-primas mais extrativas, outras não, mas quase todos os países têm essas características e eu penso que a transformação estrutural da África passa necessariamente por essa mudança. E aí nós vemos como um país como a Argélia pode parecer muito diferente de um país como Angola, mas, do ponto de vista da estrutura económica, são muito parecidos. Um país como Marrocos, que está numa senda de industrialização, pode ser na aparência muito diferente de um país como a Etiópia, mas o programa de transformação estrutural da Etiópia em termos de industrialização é muito parecido. Há semelhanças e há também diferenças. E outra característica que acho importante do ponto de vista estatístico: dividiu-se muito a África em dois pedaços. A África do Norte é sempre apresentada nos organismos internacionais junto com o Médio Oriente, com o qual ainda tem menos que ver, a não ser a língua, mas, do ponto de vista da estrutura económica, os países do Golfo não têm nada que ver com os países da África do Norte. E a África subsariana muitas vezes é encaixada com as Caraíbas e com o Pacífico, como é o caso das negociações com a Europa. Mas também tem muito pouco que ver com as Caraíbas e tem muito pouco a ver com o Pacífico. Ou seja, temos uma espécie de mentalidade meio colonial que dividiu o mundo em diferentes pedaços que são reconhecíveis e que existe um certo conforto no tipo de análise que se faz e acaba por se encaixar, digamos, na gestão desse conforto. Por exemplo, na geografia continuamos a utilizar a projeção cartográfica de Mercator, que não tem nada que ver com a massa territorial, quando existe uma projeção, a de Peters, que dá, efetivamente, um planisfério correto.

Evidente nessa questão do Mercator é Angola parecer do tamanho de Espanha quando é na realidade três vezes maior.
Exato. Aí temos a situação em que uma empresa de alta tecnologia como a Google, no seu Google Maps, continua a utilizar o Mercator. Tem que ver com uma espécie de conforto que leva a que as pessoas analisem África de um certo prisma.

Acha que o Mercator desvaloriza África?
Tenho a certeza. Não é uma desvalorização acidental, porque se as pessoas soubessem que África é do tamanho dos Estados Unidos, da China, da Índia e da Europa Ocidental e do Japão juntos, as pessoas teriam uma outra imagem do continente em termos de diversidade. E, aí sim, poderiam entender que, de facto, a África é muito mais complexa do que se imagina. Por outro lado, nós sabemos que seis economias representam 70% do PIB africano. Portanto, nós temos um conjunto de países, 40 e tal países, que são muito pequeninos do ponto de vista económico, à escala mundial, e, portanto, se não houver semblante de unidade para poder dar, digamos, estofo, para que esses países possam evoluir, desenvolver-se, negociar… é muito difícil.

Olhando para uma África anglófona, uma lusófona, uma francófona, o legado colonial faz diferença hoje em dia ou ao fim de 50 anos de independência isso já se esbateu?
Ainda existem muitos traços que podem ser verificados de herança colonial diferente nos vários países, mas, de uma maneira geral, acho que já se esbateu. Por exemplo, nós temos países da África Austral, anglófonos, que parecem muito mais organizados e estruturados e que tiveram, digamos, uma urbanização consequente, tiveram uma descentralização administrativa e que têm características muito mais próximas da era industrial, mas também temos exemplos de países anglófonos como a Nigéria ou a Serra Leoa que estão num descalabro total. Também temos neste momento países que crescem muito na África dita francófona, como é o caso da Costa do Marfim, como é o caso do Senegal, e depois temos países que estão numa letargia total em termos de desenvolvimento, que é o caso de um país como os Camarões.

A África lusófona é mais coerente…
Não. Temos o caso de Cabo Verde, que tem uma trajetória consequente, e temos uma Guiné-Bissau, que está em conflito perene.

Esses dois países tiveram até um processo de luta de libertação comum…
E até, digamos, de história colonial muito próxima e com uma administração comum durante maior a parte da sua vivência colonial. Isto prova que são as características e os contextos específicos de cada país que determinam um pouco a política. Mas há grandes traços da política africana que são comuns a todos. Por exemplo, a construção do Estado pós-colonial na África, na maior parte dos casos, foi uma extensão dos direitos adquiridos pelos cidadãos aos sujeitos. Porque o que existia durante o período colonial era que havia uma categoria, uma elite, digamos, que era considerada cidadã e tinha todos os direitos de cidadania. E aí incluía-se uma parte da população africana, que nós chamávamos de assimilados.

Fonte: Dn

Leave a Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.