Oriundo de Batumi, na Geórgia, o MV Rhosus tinha a Beira como destino. Mas quer tenham sido “dificuldades técnicas” como disseram os advogados que representaram os marinheiros, quer tenha sido para recolher mais carga, como disseram à CNN, o facto é que o navio ficou ao abandono.

O paradeiro do Rhosus , que outrora foi apelidado de “bomba flutuante” pelo Maritime Bulletin, publicação online especializada em asuntos marítimos, é agora desconhecido.

E a respetiva carga acabou num armazém: 2750 toneladas de nitrato de amónio, um químico industrial utilizado quer como fertilizante quer como carga explosiva para a indústria mineira.

Terá sido este material que levou à explosão que causou pelo menos 137 mortos, dezenas de desaparecidos, 5000 feridos e 300 mil residentes sem teto.

Segundo a CNN, depois de o cargueiro de bandeira moldava ter acostado na Grécia para reabastecer, o proprietário do navio, Igor Grechushkin, informou o capitão que tinha ficado sem dinheiro pelo que teriam de recolher carga adicional para cobrir os custos de viagem, o que os levou a fazer um desvio para Beirute.

Na capital do Líbano, o MV Rhosus foi impedido de prosseguir pelas autoridades portuárias locais devido a “graves violações na operação de um navio”, taxas em dívida ao porto, e queixas apresentadas pela tripulação russa e ucraniana, segundo o Sindicato dos Marítimos da Rússia disse à CNN.

O empresário russo, que residia em Chipre, declarou a Teto Shipping falida foi depois acusado pelo capitão Boris Prokoshev de ter abandonado o navio e a tripulação — uma “bomba flutuante” deixada à porta da capital do Líbano.

Vários credores, segundo os representantes legais da tripulação, apresentaram igualmente queixas.

Confrontados com falta de víveres, parte da tripulação (seis) teve ordem para regressar a casa, enquanto o capitão, russo, e três tripulantes, ucranianos, tiveram de permanecer meses no navio.

Um juiz acabou por dar autorização aos quatro homens para desembarcarem e serem repatriados. E como o navio ficou ao abandono e a carga era perigosa, foi decidido remover a carga para um armazém do porto, o que aconteceu em novembro de 2014.

Na quinta-feira, a polícia cipriota disse ter interrogado Igor Grechushkin. “As autoridades libanesas pediram-nos que localizássemos o indivíduo e lhe fizéssemos algumas perguntas, o que nós fizemos”, disse um porta-voz da políciaà AFP. “As suas respostas foram enviada para o Líbano”.

O porta-voz da polícia disse que Igor Grechushkin não foi detido e que lhe foram feitas perguntas específicas relacionadas com a carga do navio, conforme solicitado pela Interpol.

Os diretores dos serviços de Alfândegas avisaram desde então para os riscos do armazenamento do material. O diretor do porto de Beirute, Hassan Kraytem, reconheceu esses riscos. “Sabíamos que se tratava de materiais perigosos, mas não nessa medida.”

“As Alfândegas e a Segurança do Estado [agência de segurança nacional] enviaram cartas [às autoridades] a pedir a remoção ou reexportação dos materiais explosivos há seis anos, e desde então temos estado à espera que esta questão seja resolvida, mas em vão”, disse Kraytem.

Horas antes das explosões, uma obra de manutenção foi realizada na porta do armazém 12. “Foi-nos pedido pela Segurança do Estado que arranjássemos uma porta do armazém e fizemo-lo ao meio-dia, mas não faço ideia do que aconteceu à tarde”, disse.

Em dezembro de 2019, um relatório da Segurança do Estado foi enviado para o gabinete do primeiro-ministro, para os magistrados, para os serviços de informações do Exército e ainda para as Alfândegas a relembrar os perigos em que a cidade incorria, informa o Al Akhbar.

No entanto, os responsáveis políticos sacodem a água do capote. “Não estávamos conscientes, e todos sabem que estávamos concentrados em enormes problemas noutra área”, afirmou o primeiro-ministro Hassan Diab.

No mesmo tom, o ministro Michel Najjar, que tutela o porto, afirmou: “Nenhum ministro sabe o que está nos hangares ou contentores e não me compete saber.”

Não é difícil de compreender que os libaneses demonstrem a sua raiva contra a elite política e denunciem a investigação sobre o desastre estar a cargo dos políticos e dos militares e não das autoridades judiciais.

“Isto é negligência por parte da elite dominante. Uma bomba atómica esteve lá durante anos, e nem um único líder ou governante fez alguma coisa a esse respeito”, disse um residente à Euronews.

Fonte: Diário de Notícias