Dizem alguns cidadãos, cépticos ou nihilistas, ambos descendentes do obscurantismo, que o tal vírus nada lhes diz nem afecta. É doença inteligente, com estratégia e missão a cumprir no mundo pandemizado. Sabe quem ataca.

Primeiro tinha raça e talvez por isso andasse pela ásia e pela europa. Depois tinha estrato social, era de quem viajava para o estrangeiro, o que não era para todos. Nós, os outros que não andamos no ar em classes privilegiadas ou nem por isso, até mesmo em missão de negócio muambeiro, mas a pé debaixo de ardentes raios de sol, estamos protegidos pela mágica estrela rainha, porque desconhecemos o conforto dos aviões, e os raios que nos katingam e torrificam matam o corona. E quando o cacimbo chegar, a serenar, já tudo passou. O problema, agora, são as teias complicadas dos procedimentos das leis do estado de emergência ou de calamidade pública, em que o cidadão passou para o lado da emergência e da calamidade e o Estado e o que vem do poder público anda do outro lado. A liberdade individual é esmagada pelo cilindro das decisões e as leis não são sociologicamente iguais para todos, impactando de maneira diferente consoante o bolso de cada um. Informação é o que não falta sobre os cuidados a ter no novo normal carnavalesco de máscara e álcool gel alternativo à água e sabão, quantas vezes inexistentes. Nem faltam as regras sistematicamente violadas, com as cercas puladas como exemplo maior, a ampliar o limite territorial e a tornar a desgraça nacional. Tipo vingança contra os que trouxeram, querem trazer ou ir buscar o vírus, estão aí as burocracias e dificuldades institucionais para os que precisam de ultrapassar fronteiras, num sentido e noutro. Para vir, os complexos meandros entre Consulados, Embaixadas, Representantes de Cidadãos nomeados ad hoc com grande mérito na articulação de acções, informação e apaziguamento de espíritos ardentes, que se impõe reconhecer. E ainda Companhias aéreas, Centros e Hotéis quarenténicos, Clínicas zaragatoásticas, Ministérios, a Comissão Interministerial anti-COVID e tantas autoridades com as suas ordens, contra-ordens e desordens, próprias dos circuitos e curto-circuitos das nossas (in)culturas institucionais e conflitos de competências das nossas interministerialidades onde cada um debita o seu jajão. Para ir, teias não menos complicadas… e para ultrapassar cercas sanitárias internas nas situações permitidas e necessárias, as makas podem ser outras mas não menos fáceis.
Depois de meses no exterior, retido e falido no debrouiez-vous, finalmente a notícia boa do repatriamento torna pequeno o tremendo esforço de filas nas Embaixadas e Consulados e os mil telefonemas, diligências e esquemas em busca de uma oportunidade. É espantoso descobrir que coisas tão simples fazem afinal parte do mundo dos nossos direitos. Quando a roda veloz dos tempos já admite o direito a ser esquecido, para nos livramos de passados estigmatizantes, nunca sequer imaginamos que o direito a ser lembrado também faz parte do núcleo do que mais importa para a afirmação da personalidade. Mas quando vem a notícia da data de embarque com check in e tudo, marcado para as 3:30 da manhã e partida às 8:30, o alívio é total. A Pátria lembrou-se de ti e sentes que readquiriste a nacionalidade que tanto te orgulha. Afinal, o chek in só abriu às 6:30, o avião aterrou às 16:00, veio a ordem de permanecer no avião a preencher formulários porque já ninguém vai para o Calumbo nem para os substitutivos hotéis, mas directamente para o conforto do lar em quarentena domiciliar. A euforia terminou num rompante a cortar duas longas horas de espera, com a contra-informação de que voltamos à primeira forma e toca a descer do avião. Afinal eram regras aprendidas nas redes sociais, que nos dão o feeling do dom do futurismo, a chegar aos internautas antes do anúncio oficial da prorrogação do Estado de Calamidade que introduziu o novo conceito. Claro que ninguém dormiu desde o dia anterior e 24 horas depois da hora em que, potencialmente, poderias começar aqueles sonhos que misturam ponteiros de relógios com motores de avião, estás, finalmente, num hotel, rebentado mas são, salvo e feliz, a agradecer porque não tiveste o azar de ir parar a local que não tinhas reservado, a família não ficou dividida, a bagagem está na tua posse e estão contigo os teus medicamentos e os do doente que acompanhas.
Mas o drama da prima Ngonguita continua. Médica especialista que precisa de continuar o tratamento que iniciou no exterior, porque não há recursos locais, está embrulhada no emaranhado das incertezas burocráticas e da desinformação dos agentes. Não chega a resposta da Comissão ao pedido de autorização feito há meses. Dizem alguns que é preciso print de reserva de viagem que as agências recusam dar e teste de covid com resultado negativo que de certeza vai caducar na data da viagem porque só dura 72 horas. Só o marido, de papel passado na conservatória e na igreja, com todas as testemunhas do alambamento e dos bodas rijos que todos contribuímos, da parte de lá e de cá, é que pode viajar com o filho, ah porque não tens nacionalidade ou residência estrangeira. Há uma “norma activa” (um normativo!?) que proíbe. Vai reclamar mas não lhe deixam entrar. Chega ao ponto de tentar uma guia de marcha da Ordem dos Médicos para ter acesso ao edifício onde funciona a instituição. Removidos obstáculos, com a autorização na mão, corre para a compra do bilhete de passagem e não lhe aceitam o visto porque foi emitido antes da data do início do Estado de Calamidade. Corre agora para o Consulado e para obter o novo visto precisa de print de reserva de viagem e de seguro que também exige o tal print que ninguém lhe dá porque de estrangeiro só tem marido. Entras num novo círculo vicioso em que te pedem galinha para teres um ovo e um ovo para teres galinha quando outros têm galinhas especiais que até ovos de ouro dão.
Começas a acreditar nas elucubrações teóricas do amigo que te filosofou sobre a relatividade da ética e, a final, com um favor que amanhã vais trocar com outro favor qualquer da mão que lava a outra e as duas a cara, tens um print de falsa reserva que todos aceitam com a maior naturalidade como num toque de varinha mágica.
Estás quase no fim da corrida quando a má-quina de captura dos dados biométricos não aceita as tuas impressões digitais. Sentes-te inexistente, sem identificação nem identidade própria e voltas para casa mais deprimida que nunca, sem saber se, sozinha no carro, aumentas o desconforto e usas a máscara, que na ginástica e nos restaurantes não se exige, ou corres o risco de ir parar à esquadra como o caso a que assististe nas notícias.
Apesar do esforço meritório para legislar, regulamentar e comunicar, alguma coisa não está mesmo bem ao nível dos que fazem acontecer, com obrigação de saber como fazer e que, por vezes, pelos seus desconchavos, parecem não estar melhores do que aqueles que, por ignorância, ainda duvidam da letalidade do invisível.
Lembrou-se do Kota reformado que reclamou lá na clínica: “essa doença que viaja e troxeram de avião é quem tem dinheiro que agora nos troxeram. Aqui somos manguito, estamos acostumado a comer n’bora nossa kizaca com ginguba e funji com peixe seco. Agora um gajo nem consegue ir na lavra, a polícia fica a tua trás cuculo cuculo a te complicar ah porque faz de braço, com pouca sorte te amarram, um mais velho os olhos quase que saem do lugar”.
Cais no sofá com esse pensamento e a sensação de que não são só os olhos mas o cérebro que te saem do lugar, com a mente obnubilada adormeces na hora de mais uma conferência de ponto de situação que começa no Centro de Imprensa Aníbal de Melo e só acordas no dia seguinte. Com a leve lembrança de que estava lá o nosso tio Mufinda e havia mais um número de casos que já não conseguiste ou inconscientemente não quiseste ver.
Tão leve que foi logo esquecida pela forte vontade de um bom chá de caxinde fresco com batata doce e banana pão assadas, bombó e ginguba torradinhas como aquele ministro simpático sugeriu, caso a situação do país venha a piorar. Foi reconfortante – confessou. E como se falasse com uma pessoa inteligente, disse bem alto, no silêncio da sala: “Essa eu gostei”!


Fonte: Jornal de Angola